quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Holocausto


“Não há nada que toque menos uma obra de arte do que palavras de crítica: elas não passam de mal-entendidos mais ou menos afortunados. As coisas em geral não são tão fáceis de apreender e dizer como normalmente nos querem levar a acreditar; a maioria dos acontecimentos é indizível, realiza-se em um espaço que nunca uma palavra penetrou, e mais indizíveis do que os acontecimentos são as obras de arte, existências misteriosas, cuja vida perdura ao lado da nossa, que passa.”
Rainer Maria Rilke


“Holocausto” é a primeira e corajosa empreitada de uma jovem companhia que merece um tempo, um tempo de reflexão e um tempo de maturação. A coragem não é uma virtude que se tem, mas que se aplica. Ela envolve fazer algo, não é algo que se possua, mas um agir. Podemos ser corajosos hoje e covardes amanhã. Por isso devemos apoiar a coragem e quem sabe participar dela um dia.
Corajosa é o que se pode dizer sobre a Cia. dos Outros, que se debruçou sobre uma forma de representar que ainda não é fácil de organizar em discurso ou em crítica. Dança-teatro ou teatro-dança são categorias híbridas, formas de ajudar a entender criações que transitam em mais de um universo. O maior risco desse tipo de categorização é que se pode sofrer a analise dos dois universos ao mesmo tempo, um grande risco que deve ser corrido, mas nem sempre pode ser vencido.
A exploração do espaço-tempo é o que pode unir esses dois universos tão próximos e tão distantes – dança e teatro – meio-irmãos, separados após nascerem juntos e que se reencontram após longas jornadas de peripécias, cada qual com histórias para contar e surpresas a desvendar um do outro.
A dança figura hoje entre as artes temporais – teatro, dança, performance – que mais se destaca. Num mundo que se quer globalizado, ela pode atravessar fronteiras que nem sempre as outras podem. Ela dramaturgiza o espaço. Conversa com ele e constrói relações com ele. A dramaturgia da dança se inscreve no tempo, no espaço, mas principalmente nos corpos. Neles é que fica mais visível a diferença de tratamento de um trabalho. Os principais criadores dessa arte mestiça que hoje é a dança-teatro transitam entre esses universos com corpos híbridos e ricos de histórias.
Temos que nos debruçar mais um pouco sobre essas questões que não são simples por se tratarem da mais simples e ao mesmo tempo mais complexa mídia: o corpo. E aqui todo o cuidado é pouco, não podemos dar sentenças sem faltar com algo ou alguém. Porque Rilke nos orienta e nos despista. Porque é verdade que nada podemos falar sobre o indizível nem por isso devemos calar.
Dramaturgizar o espaço, o tempo ou os corpos significa escrever sentido neles. Colocar sentido de orientação nesses elementos. A dramaturgia do corpo seria então como esse corpo escreve, cria movimentos, formas, signos. Como ele escreve e porque escreve dessa forma. O mesmo ocorre com o espaço e o tempo. Escrever significa dar sentido, organizar. Não se pode exigir dramaturgia de crianças, ou antes, só se pode exigir uma dramaturgia infantil delas.
E crianças são ótimas dramaturgas, elas criam sentido no sem sentido, fazem de montes de areia, desertos e de pedaços de pano, fantasmas. Mas como o próprio nome diz são infantis. São ricas dramaturgias e sabemos que é no, ou sobre, o universo infantil que muitas das grandes criações se debruçaram, vide Lewis Carrol, Montero Lobato ou Guimarães Rosa. Ainda assim não parece ser sobre o universo infantil que versa Holocausto embora seja ainda bastante imatura a forma como dramaturgizam todos os elementos da cena.
É possível adentrar no universo que o espetáculo nos propõe. Eles começam nos dando uma chave que ajuda a entender onde eles gostariam de chegar. “Holocausto” é a designação dada ao extermínio sistemático e generalizado sobre uma etnia específica em um determinado momento histórico. Esse é o paralelismo que nos querem dar. Que há uma geração vivendo em holocausto. Uma geração de homens e mulheres sistemática e generalizadamente exterminada.
Independente de concordar ou não com isso temos uma chave de interpretar a dramaturgia que eles nos propõe. Não é um argumento facilmente digerível e colocar isso no tempo, espaço e principalmente nos corpos é tarefa que requer tempo e dedicação. Temos que lembrar que apenas hoje os espetáculos de Butô, que tem tema próximo, estão alcançando uma aceitação mais fácil. Ainda assim às custas de se adaptar e depois de anos de aprendizagem e de intensa preparação corporal. Não é isso que vemos, mas os vemos tentar e isso é um ótimo sinal.
A maturidade vem com o tempo e o tempo é generoso nesse aspecto, ele tem muito de si e muito de si para dar. Podemos esperar então que a Cia. do Outros tenha muito dele e bastante paciência para aprender com suas próprias experiências e quem sabe criar sentido para aquilo que ainda não tem.
Seria faltar com a verdade que nada chama a atenção; algo chama a atenção nesse espetáculo, e “ao circular pela superfície, o olhar tende a voltar sempre para elementos preferenciais” (Vilém Flusser) e sou forçado a vê-la sempre. O que faz e como faz. O que olha e como olha e seus cabelos soltos a saracutear pelo espaço. Em como desliza os pés pelo chão e como sorri e caminha e pareceria tolo, ou infantil não me fosse assim permitido. Quando não se guia o olhar o olhar se guia. A regra para a informação é que só a diferença informa E ela informa. Dos três interpretes Carolina Bianchi chama a atenção, provavelmente sem intenção, como uma luz que não se pode pedir que brilhe menos e que se espera que não brilhe menos, ainda assim ofusca.
Será preciso coragem para admitir as faltas, sempre é preciso. Mas se forem corajosos em admitir o que lhes falta estarão sendo tão corajosos como foram quando se propuseram suas jornadas. E aplausos devem ser dados, não para o que se apresenta, ainda muito imaturo, mas para encorajar e participar de um futuro, que se espera seja em breve, mas ainda por vir.

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