sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Prêt-à-Porter 8

Tempo é nosso bem mais preciso, por isso não se pode desperdiçá-lo. Algumas pessoas gostam de fast food, outras preferem uma cozinha mais sofisticada. Se você pertence àqueles que gostam de fast food, vá assistir Prêt-à-Porter, tanto faz o número, do primeiro ao que está em cartaz agora não faz muita diferença.
Tudo se confunde nesse projeto: Atores-criadores com dramaturgos, intimidade com proximidade, delicadeza com aparência, espetáculo com ensaio. O nosso tempo seria mais bem gasto numa longa discussão sobre cada uma das propostas que são feitas do que nas propostas em si.
Desde o primeiro Prêt-à-Porter já se confundia atores criadores com dramaturgos, é evidente a preocupação do CPT com a dramaturgia, e o atual estado da dramaturgia nacional. É uma preocupação digna e que merece um olhar atento. Dizer que não há dramaturgos talentosos é uma afirmação no mínimo leviana. Celso Cruz, Cássio Pires, Caetano Gotardo são alguns dos nomes que sem muito esforço podemos citar; dramaturgos ativos e criativos que mereceriam espaço para desenvolver ainda mais sua verve artística.
Faria bem ao CPT buscar dramaturgos a altura das possibilidades de pesquisa dos atores envolvidos no projeto Prêt-à-Porter. O problema não está na filial de número 8, eles podem abrir mais filiais ainda e provavelmente irão. Farão o Prêt-à-Porter 9, 10, 11... tanto faz, não são nas filiais o problema, o problema é na matriz.
Prêt-à-Porter começa errando na sua afirmação de que não há bons dramaturgos, erra ao abrir um exercício de interpretação para o público, erra ao crer que tudo pode, porque não pode. O CPT é um centro de referencia e pesquisa, subsidiado e com amplas possibilidades e chega a ser um desatino tamanho equivoco continuado.
Atores-criadores não é um sinônimo para atores-dramaturgos, atores-diretores, atores-encenadores. Todo mundo tem uma vida interessante, todo mundo tem uma história para contar, mas é preciso um Dostoievski para escrever uma obra de arte, é preciso ser um Beckett para escrever uma peça. Isso não significa que não se poder atuar e escrever, que o diga Molière, Shakespeare, Zé Celso, mas que devemos tomar os devidos cuidados e nada melhor que uma critica aguda para isso.
Das três cenas dessa oitava filial, todas elas mereceriam um tratamento dramaturgico de primeira, falta à lida com as palavras, as ações cênicas são muito bem realizadas, mas as palavras são frágeis, mal desenhadas. “Ponto sem retorno”, a primeira cena chega a ser óbvia em sua construção, em seus silêncios, e aí chega a ser obvia, provavelmente por falta de opção dos atores, a interpretação.
“Exiladas” melhora um pouco pois entra em um não lugar mais interessante, um lugar fora do óbvio, fora do cotidiano, adentra numa dramaturgia um pouco mais ousada, com uma interpretação mais ousada, mas ainda assim não diz a que vem, tateia no território do desconforto, mas peca no exagero às piadas, mas nesse exercício podemos ver o apontamento de algo mais. Falta é claro um tratamento dramaturgico mais intenso, falta uma encenação para dar suporte às atrizes, solitárias tendo que lidar com o pouco que possuem para criar.
Já “Velejando na Beirada” tenta seguir a tradição de textos como os escritos por Beckett ou Albee, mas sem ser nenhum, nem outro. Fica entre os achados engraçadinhos de uma situação engraçadinha. Aos atores lhes resta a graça e tirar leite de pedra.
No todo falta tudo, é impossível tentar analisar a soma das partes. As três cenas não se costuram, não se tocam, não tem porque estarem juntas. Não refletem uma na outra, não amplificam uma na outra. Estão juntas por estarem. Por pertencerem à mesma leva. Poderiam estar nessa edição como na próxima, como na anterior. Quando tanto faz o que é dito, tanto faz quando? A primeira poderia ser a última, a segunda a primeira e essa indiferença acaba por sinalizar essa displicência para com a platéia.
Esse descuido reflete um mal teatral muito comum hoje em dia, o desinteresse do público pelo teatro é equivalente ao desinteresse do teatro para com o público. Por não se preocupar em dar um excelente espetáculo - o que temos é um apanhado de três cenas sem nenhuma preocupação conjunta - sem nem ao menos se dar ao trabalho de pensar numa costura o que vemos é o desinteresse em perguntar o que eles queriam ou tentavam dialogar conosco.
O teatro sofre desse narcisismo desenfreado, fala de si e para si. Quantos espetáculos não são assim: àqueles que fazem se divertem, exprimem-se, mas param por aí. São autocentrados, preocupados unicamente consigo mesmos, sem olhar para além da ribalta, sem olhar para aqueles para quem e com quem estão dialogando. Prêt-à-Porter é isso: um exercício que deveria ficar restrito a eles. Colocar isso para o crivo do público é narcisismo puro, pura virtuose em cena.
É evidente que os atores do CPT possuem um nível de excelência indiscutível, possuem mesmo. Mas um nível de excelência a serviço de nada é nada. Bons atores interpretando peças medíocres vão construir um espetáculo medíocre. E é isso que temos nos prêt-à-porter: espetáculos medíocres.
Outro erro comum nesses dias de vale tudo é a confusão constante que diz que intimidade é sinônimo de proximidade, não são. Que o digam todos os que utilizam transporte público em São Paulo – mais próximo impossível, menos intimo também - por isso fazer um espetáculo próximo só acentua os defeitos dessa oitava edição. Confunde-se a proximidade do público com a falsa ilusão de intimidade. Não ficamos íntimos daqueles personagens, não adentramos em seus pensamentos íntimos só porque eles estão a cinqüenta centímetros de distância. Não. Apenas fingimos, como eles, que acreditamos nessa intimidade. A intimidade pode ser conseguida com 15 ou 500 espectadores, ela não depende da quantidade nem da localização, mas da melhor maneira de, da forma como se faz isso. Como se cria essa intimidade. Como ela é construída com o corpo e a voz dos atores. O espetáculo caberia no palco italiano da mesma forma como cabe no espaço de ensaio do CPT.
Mais é a sensação que nos fica. Eles poderiam mais, podem mais. É evidente que sim, mas a pergunta que fica é porque não o fazem. Eles mereceriam mais, mas principalmente, nós merecemos mais.

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