sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Prêt-à-Porter 8

A ida ao teatro exige um ritual. Prepara-se com antecedência uma noite que inclua uma ida ao teatro: decide-se qual peça assistir, compra-se o ingresso com antecedência, chega-se a sala do espetáculo com alguma antecedência, pois atrasos não são bem tolerados. Não se pode culpar o espectador por ter uma expectativa com relação ao que está por vir minimamente elevada. Que espere que ele lá está para partilhar um acontecimento.
A série de projetos Pret a Porter sob a coordenação de Antunes Filho que agora chega a sua oitava edição falha nesse sentido. Quem acompanha esse trabalho, ou quem ao menos assistiu a uma ou duas das edições anteriores já sabe que não se deve chegar ao teatro do SESC Consolação com a expectativa de assistir a um espetáculo propriamente dito. Trata-se de um exercício de atores, responsáveis também pela dramaturgia das cenas que apresentam e pelo simples cenário e poucos adereços que compõem a cena.
Ao fim da apresentação, o que fica ao espectador é a questão: de que me valeu vir até aqui, pagar o valor desse ingresso e compartilhar dessa hora do meu dia com esses atores? Tratando-se essa da oitava edição do projeto aberta ao crivo do público devemos supor que, em relação ao que foi apresentado da primeira vez, algum avanço que valha a pena ser demonstrado ao público virá à tona, que algo de novo apareceu na pesquisa e que, portanto, atores e diretor consideram que seja o momento de novamente compartilhar com o público o que vinha sendo trabalhado entre quatro paredes.
Que Antunes Filho trata com preciosismo e extrema dedicação o trabalho de seus atores já foi possível constatar em edições anteriores deste projeto e nos espetáculos apresentados com a direção de Antunes. Por que então, convidar pela oitava vez o espectador a vir ver o que ele já viu? Sim, são novos os atores que lá estão. Então para eles há, de fato, o fator de novidade. Mas, e para os espectadores? Talvez a qualidade da dramaturgia, inovadora ou superior às anteriores, justifica-se então... Mas não. Insegura, instável e frágil ela nos deixa a impressão de que, aparados por uma dramaturgia mais firme, aqueles atores poderiam brilhar mais em cena.
Por que então abrir um exercício de interpretação ao público? A troca é injusta, vale mais para os atores que ainda não tinham compartilhado com o espectador o exercício que Antunes aprovou. Ah, pode valer também para aqueles que nunca tiveram nenhum contato com nenhum trabalho anterior do diretor. Mas, se esse for o caso, ai vai a dica: aguarde algum espetáculo com a assinatura de Antunes, assim você mata de vez o trabalho que o diretor desenvolve com seus atores, mas ganha ainda o preciosismo com a cena, os belos cenários e uma dramaturgia sólida com no qual ele estará envolto.

Nenhum comentário: