Foi bonito de se ver. Eram três meninas vestidas de branco, habitando um quadrado branco, com 3 cadeiras brancas, uma mesinha branca e uma porta branca. Fora do quadrado, havia um homem de preto com uma mala, que lia um jornal em japonês.
No começo, parecia surreal aquelas garotas de vestidos quase de noiva posando com seus leques negros e o homem a ler sobre o tempo. Uma das garotas corria sempre à porta, abrindo-a e fitando desesperadamente o nada, enquanto as outras tentavam arranca-la de lá. E o homem lendo sobre o tempo.
Com o desenrolar da peça, percebe-se que há uma história sendo contada. É a espera que nos está sendo mostrada. Uma garota espera, para sempre, seu amado. E ponto. Simples assim, preenchendo uma hora de espetáculo.
É essa exatamente a idéia: retratar o tempo da espera. Para isso, a Cia. de Ensaio recorreu a uma peça tradicional do teatro nô japonês: “Hanjo”, de Zeami e sua releitura feita pelo escritor contemporâneo Yukio Mishima. A percepção oriental da vida e do tempo pareceram adequadas para conceber a espera (o que, para mim, faz muito sentido, principalmente ao pensar em filmes japoneses e coreanos), quase oposta a nossa mania ocidental de correr e produzir, afinal “time is money”!
Em dado momento, as três meninas começam também a ler um jornal. Elas lêem sobre uma garota que tem intrigado os moradores da região, ela tem a maquiagem carregada e sempre que um trem chega, ela aparece à porta de sua casa, segurando um leque. Fica lá até a última pessoa descer do trem. Pessoas tentaram aborda-la, mas ela não fala mais. As meninas oscilam entre a alegria e a tristeza ao se enxergarem naquela reportagem e perceberem sua situação.
Elas brigavam entre si e se consolavam, demonstrando todos os acontecimentos interiores de uma pessoa: o que quer fazer, mas não pode faze-lo, a dor sentida quando se deu conta de que já era outono e “ele disse que voltaria antes do outono!” e as demais correndo a consolá-la, porque são a mesma pessoa, compartilhando a mesma dor. Do lado de fora, pode não estar acontecendo nada, mas a vida interior não pára. Podemos perceber a nós mesmos exatamente nos momentos de espera, em que ainda vamos “fazer” algo, enquanto isso, podemos “ser” um pouco.
Esteticamente, a peça era linda. Cenário, figurino, maquiagem, movimentos, disposições dos corpos. Eles conseguiram dialogar com símbolos orientais (como o leque e a maquiagem branca) sem imita-los ou deixa-los óbvios, fizeram-no de maneira muito sutil. As roupas das meninas eram feitas de uma grande saia de tule e um tecido transparente sobrepondo-se a outro opaco fazendo a blusa, tudo branco, parecendo vestidos de noiva. Só a roupa do homem deixou a desejar, uma vez que todo o seu “cenário” era ele, sua mala e o jornal. Talvez ele estivesse “normal demais”, com um terno preto e uma mala preta com cara antiga.
A concepção da peça foi muito interessante, apesar das cores clichê branco com detalhes em vermelho e o preto, elas foram bem usadas. A peça talvez tenha sido um pouco rápida, no sentido de que não foi parada ou arrastada, pelo menos eu não a senti assim. Sempre havia algo acontecendo, mesmo que não houvesse muito o que contar. Talvez devesse haver silêncios maiores, momentos de “nada a fazer” mais longos, exatamente para causar um desespero em nós, a platéia ocupada que, ao final, já deve sair correndo para seu próximo compromisso. Saí correndo, de fato (nem fiquei para o coquetel para comemorar a estréia!), mas saí feliz de ter visto uma peça que exigiu algo de mim e me pôs a pensar.
No começo, parecia surreal aquelas garotas de vestidos quase de noiva posando com seus leques negros e o homem a ler sobre o tempo. Uma das garotas corria sempre à porta, abrindo-a e fitando desesperadamente o nada, enquanto as outras tentavam arranca-la de lá. E o homem lendo sobre o tempo.
Com o desenrolar da peça, percebe-se que há uma história sendo contada. É a espera que nos está sendo mostrada. Uma garota espera, para sempre, seu amado. E ponto. Simples assim, preenchendo uma hora de espetáculo.
É essa exatamente a idéia: retratar o tempo da espera. Para isso, a Cia. de Ensaio recorreu a uma peça tradicional do teatro nô japonês: “Hanjo”, de Zeami e sua releitura feita pelo escritor contemporâneo Yukio Mishima. A percepção oriental da vida e do tempo pareceram adequadas para conceber a espera (o que, para mim, faz muito sentido, principalmente ao pensar em filmes japoneses e coreanos), quase oposta a nossa mania ocidental de correr e produzir, afinal “time is money”!
Em dado momento, as três meninas começam também a ler um jornal. Elas lêem sobre uma garota que tem intrigado os moradores da região, ela tem a maquiagem carregada e sempre que um trem chega, ela aparece à porta de sua casa, segurando um leque. Fica lá até a última pessoa descer do trem. Pessoas tentaram aborda-la, mas ela não fala mais. As meninas oscilam entre a alegria e a tristeza ao se enxergarem naquela reportagem e perceberem sua situação.
Elas brigavam entre si e se consolavam, demonstrando todos os acontecimentos interiores de uma pessoa: o que quer fazer, mas não pode faze-lo, a dor sentida quando se deu conta de que já era outono e “ele disse que voltaria antes do outono!” e as demais correndo a consolá-la, porque são a mesma pessoa, compartilhando a mesma dor. Do lado de fora, pode não estar acontecendo nada, mas a vida interior não pára. Podemos perceber a nós mesmos exatamente nos momentos de espera, em que ainda vamos “fazer” algo, enquanto isso, podemos “ser” um pouco.
Esteticamente, a peça era linda. Cenário, figurino, maquiagem, movimentos, disposições dos corpos. Eles conseguiram dialogar com símbolos orientais (como o leque e a maquiagem branca) sem imita-los ou deixa-los óbvios, fizeram-no de maneira muito sutil. As roupas das meninas eram feitas de uma grande saia de tule e um tecido transparente sobrepondo-se a outro opaco fazendo a blusa, tudo branco, parecendo vestidos de noiva. Só a roupa do homem deixou a desejar, uma vez que todo o seu “cenário” era ele, sua mala e o jornal. Talvez ele estivesse “normal demais”, com um terno preto e uma mala preta com cara antiga.
A concepção da peça foi muito interessante, apesar das cores clichê branco com detalhes em vermelho e o preto, elas foram bem usadas. A peça talvez tenha sido um pouco rápida, no sentido de que não foi parada ou arrastada, pelo menos eu não a senti assim. Sempre havia algo acontecendo, mesmo que não houvesse muito o que contar. Talvez devesse haver silêncios maiores, momentos de “nada a fazer” mais longos, exatamente para causar um desespero em nós, a platéia ocupada que, ao final, já deve sair correndo para seu próximo compromisso. Saí correndo, de fato (nem fiquei para o coquetel para comemorar a estréia!), mas saí feliz de ter visto uma peça que exigiu algo de mim e me pôs a pensar.
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