quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

A dama e os vagabundos

É com grande lentidão que a Boa Companhia consegue dizer a que veio no espetáculo “A dama e os vagabundos”. Uma sutil contradição, já que a primeira fala do espetáculo é o famoso texto de Nelson Rodrigues que atribui a verdadeira vocação dramática ao canastrão. E “quanto mais límpido, líquido e ululante melhor”, adverte Nelson. Não é o que acontece. As regras do jogo demoram a clarear e na maior parte das vezes se confundem. Explico.
O tema da peça é o relacionamento amoroso entre o homem e a mulher. Dividido em cenas, a maioria das abordagens do espetáculo, trata do masculino que sofre pelo amor não correspondido por parte da amada. Nesta narrativa são utilizados preponderantemente o sarcasmo e, principalmente, os clichês.
Para continuarmos, é preciso um aparte sobre eles. O clichê configura-se basicamente em dois âmbitos: expressões clichês ou situações, que baseadas em emoções óbvias, convergem para o chavão. Dramaturgicamente, o uso de ambos os recursos, quando desgastados, passam a transcender o seu sentido isolado servindo a uma metáfora maior e mais potente.
O espetáculo não consegue alcançar este ponto. Muitas vezes o tema “amor clichê” é confundido com a interpretação clichê dos atores, culminando no erro de ser clichê para falar do clichê. É neste sentido que as regras do jogo se confundem. Perde-se o limiar entre o que se fala e como se fala.
Além deste aspecto, a peça apresenta um outro componente na estrutura narrativa. As cenas são entrecortadas por elocuções de poemas mais profundos e sensíveis. Sim, os poemas são geniais, bem como os atores. A falta de definição citada anteriormente, porém, faz com que estes momentos líricos percam a sua verossimilhança pela contaminação do clichê e do canastrão.
A cena que chega mais perto de ser bem sucedida é fatalmente prejudicada por estes fatores. Mais próximos à platéia, três homens com seus paletós pretos estão sentados na situação de quem foi abandonado por quem amava. Ao fundo, um dos atores trajando as mesmas roupas toca no violão a canção “Crying”, de Roy Orbison. Esta circunstância ocupa um lugar comum para todos nós, logo é um clichê. O ator que canta a canção está arrebatadoramente preenchido de imagens. Está condensado em seus sentimentos e centrado, na verdade, na emoção motriz da cena, traduzindo o que os sessenta minutos de espetáculo tentam abordar. Este quadro consegue falar do clichê sem o ser.
Mas daí vem a confusão. Os atores na cadeira começam a chorar o choro do canastrão. Ao fundo, a dama clichê; em seu vestido vermelho clichê; com seu óculos escuro também clichê – e por que não com seu lenço preto clichê sobre a cabeça? – limpa suas lágrimas e não nos deixa crer no homem sofrido apaixonado que canta a sua canção.
Resumidamente, o espetáculo acaba por cair em sua própria armadilha. Nós, que torcíamos tanto, mais pelos vagabundos do que pela dama, acabamos saindo frustados por uma falha de direção não solucionada. E as risadas arrancadas do público nada mais são do que reflexo de um tratamento superficial e light da temática.
É evidente que “A dama e os Vagabundos”, sendo um espetáculo de uma companhia que completa quinze anos, não é um festival de erros. E agora que já demos a notícia ruim, podemos dar a boa.
É um prazer incomensurável ver em cena atores que estão juntos há quinze anos com uma sintonia impecável. No século dos flash mobs (multidões instantâneas), dos grupos express, do teatro que varia conforme a bolsa de valores, existem ainda aqueles que acreditam que a pesquisa e o trabalho a longo prazo são inegavelmente as bases para uma construção coerente, justa e necessária para o teatro brasileiro. Consequentemente, a atuação do atores e o trabalho dramaturgico, apresentam-se sólidos e aprofundados em suas propostas.
Enfim, assistir A Boa Companhia é um exercício compensatório. Afinal aprender nunca é demais.

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