quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

9:50 Qualquer sofá

“Pensar em quando não resta mais vida”. Esta era a ordem escrita no sofá de número sete na escura sala de espera da Casa das Caldeiras. Baldes vermelhos com lâmpadas dentro serviam para iluminar os muitos outros sofás, também numerados e com outras orientações escritas.
Sim, logo na sala de espera toda a problemática estava colocada. A iluminação que aludia a reformas urbanas combinada aos sofás traduzia o tão contemporâneo – mas já bastante batido – tema do homem inserido em um coletivo cuja velocidade e necessidade de mercado esmagam a sua individualidade, levando a um esvaziamento do cotidiano.
Contudo, a Companhia Opovoempé soube abordar o assunto de uma maneira bastante simples e singular no espetáculo 9:50 qualquer sofá. Criado em 2005, dirigido por Cristiane Zuan Esteves e composto por Ana Luiza Leão, Graziela Mantoanelli, Manuela Afonso e Paula Possani, o grupo vem desenvolvendo pesquisas na área de intervenções urbanas com base na fisicalidade e no trabalho do ator/criador.
9:50 qualquer sofá “é um poema teatral coreográfico”, definem as próprias atrizes. O texto foi criado pela diretora visitando fatos reais, muitas vezes notícias de jornais de acontecimentos absurdos.
“É por ali”, “Não, é por aqui”, diziam as atrizes na primeira cena, em que surgiam carregando um sofá no alto da cabeça. Talvez esta seja a principal questão do homem atual: para onde ir? No século 21, a difusão da informação e a tecnologia somadas ao grande avanço científico nos proporcionam a constante sensação de saturamento, que muitas vezes vêm acompanhada de um vazio existencial. Além disto, o sofá ao alto também manifesta o eu fora do alcance, já que partimos do sofá como representativo da individualidade.
Somos levados então para uma sala cujo único cenário é um sofá, que, durante a peça toda, é dividido e revezado entre as atrizes. O objeto comum, escolhido para narrar várias histórias absurdas de desconhecidos, pode nos sugerir outras conclusões. A individualidade, neste caso, encontra-se tão esmagada e perdida, que um mesmo meio representativo pode dar conta dos inúmeros personagens apresentados na história. “Um dia qualquer (...) um homem qualquer (...) na sua casa qualquer (...)” é a maneira que uma das atrizes inicia a narração da sua primeira história.
Os figurinos utilizados em cena não mudam. São peças comuns de roupas cotidianas de perfis variados. Luvas e botas de um trabalhador, casacos e chinelos de uma dona de casa, vestido e salto da mulher urbana e, por fim, chapéu e sapato do homem rudimentar. Temos assim representada uma parcela considerável da sociedade. Logo todos estamos sofrendo do mesmo mal, independentemente da classe. As roupas não determinam narrações masculinas ou femininas. As atrizes interpretam histórias de ambos os gêneros.
Constantemente, as histórias são interrompidas, as atrizes nos olham nos olhos e suplicam: “Respira”. Ora, se não respiramos é porque estamos mortos. Provavelmente este é o momento da peça em que as atrizes vão mais além em seus questionamentos. Sugerir a uma platéia que está morta é fazer caírem por terra todas as suposições criadas. O retorno à ordem “respira” por várias vezes no espetáculo coloca uma discussão metateatral, já que sempre que começamos a nos envolver com as narrações somos instigados pela ordem a interromper a atenção ao espetáculo, voltarmos para nós mesmos e nos olharmos diante daquilo. Ou seja, nos posicionarmos.
A última história é a de uma pessoa que, após se acidentar, se questiona “Eu estou morta?”. Contudo, um olhar de fora a alerta “Não, você está viva”. As outras atrizes respondem invertendo o lugar da interrogação. Desta maneira, ao final, temos as quatro atrizes dividindo o mesmo sofá, se olhando e questionando-se em um jogral: “Você está morta?”, “Não, eu estou viva”, “Você está viva?”, “Eu dizia, eu estou viva”, “Não, você está morta”, em um crescente de variações.
Inevitavelmente, este fim nos leva para a grande questão inicial: Diante disto, em que não sabemos nem sentimos sequer se estamos vivos, para onde vamos?
Este é o mérito da montagem 9:50 qualquer sofá. Apesar da falta de um pouco mais de técnica no chamado “poema teatral coreográfico”, a simplicidade e ao mesmo tempo profunda reflexão no fazer teatral, e uma transparente solidez sobre o tema de que se fala, nos proporcionam um certo alívio diante deste teatro vazio e mal pensado, tão vendido e visitado na metrópole paulistana.

Nenhum comentário: