quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Educação Sentimental do Vampiro

Daí perguntou qual era o meu nome, Joana eu disse, quantos aninhos você tem, oito eu disse, você quer uma boneca de cachinho, quero eu disse. Ele prometeu todas as bonecas de cachinho se eu não gritasse.

Estas duas linhas são um conto - sim, o conto inteiro - de Dalton Trevisan. Em maior ou menor escala, assim são os textos do ermitão curitibano de 87 anos - que não mora, se esconde, e se recusa a receber qualquer tipo de visita, reza a lenda. Seu estilo apenas sugere situações que, com as entrelinhas, chegam ao profundo patético da condição humano e lhe valeram o lable de "um dos maiores escritores da literatura brasileira".

Pois o que Trevisan sugere, a Sutil Companhia de Teatro escancara.

A peça do grupo também curitibano é como um livro ilustrado em movimento com 17 contos do escritor, entre os quais "Uma vela para Dario", "37 noites de paixão" e "Onde estão os Natais de antanho". Enquanto um ator narra o texto literário, outros dois ou três do elenco desdobram a história em ação. Nas mais grotescas formas de ação, que variam entre estupros, masturbações, esposas querendo matar o marido na frente das crianças e sexo, sexo, sexo. Muito sexo.

Dessa forma, o que nas palavras da caneta de Trevisan era, por exemplo, "esfreagava as mãos no sudário viscoso, ouvia o chapinhar na bacia", torna-se o que se vê na foto (em anexo). E, bem, como uma imagem vale mais que mil palavras, imagine o que não vira um trecho como: "Um grito selvagem de triunfo, beijava-o possessa, olho aberto. Ele apertou a pálpebra, não ver a cara diabólica do gozo". Ambos os trechos retirados do mesmo "A noite da paixão".

Mas se sua intenção é uma diversão pornográfica, ainda não é este o espetáculo para você. Até tem mulher pelada, mas a censura ficou em 16 anos e a encenação é muito mais caricaturada do que literal.
A qualidade profissional dos espetáculos da Sutil e de seu encenador, Felipe Hirsh, aqui aparece na coreografia precisa dos movimentos. Cada balanço de braço e virada de cabeça parecem ter sido metodicamente calculados e dão aos olhos o prazer natural que estes têm à sincronia.

A estética escolhida é exagerada, com o tom entre o gótico e o expressionista. Os olhos são arregalados, os gestos são grandes e cada uma das palavras é quase gritada e fartamente articulada – tipo a peixinha Dori falando baleiês em "Procurando Nemo", sabe?

Há ainda a trilha sonora orquestral, o figurino moribundo de ternos e vestidos preto-e-branco e os painéis com projeções de imagens gigantescas e disformes; elementos que, juntos, criam uma atmosfera tão sombria que nem Mary Shelley se fosse diretora conseguiria fazer igual.

Em um respiro ou outro, tromba-se com uma sutil melancolia humana por trás do incômodo das mulheres perebentas ou do cômico da pateticidade sexual. São nesses momentos que encontramos a peça. Sejam eles um cruzar imprevisto com a ex-amada na rua, uma vela esquecida que se apaga com a garoa ou o fim de uma noite de natal.

Mas estes momentos duram pouco. E logo o público é afogado por nova avalanche de bizarrice visual.
Esta que vos fala nunca teve especial afeição por contos, nem por teatro narrativo e nem pelo bizarro. Já o vasto público que dividiu a sala do Teatro Popular do Sesi comigo - que fez fila para garantir entrada e, esgotadas as entradas, fez fila para esperar possíveis desistências -, pareceu se divertir bastante em suas gargalhadas e aplausos.

Saiba você do que lhe agrada.

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