quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Uma pilha de pratos na cozinha

O espetáculo tem cara de ter sido feito em sete dias. Cenário simples, marcações simples, trilha sonora simples. Como se tivesse que ter cumprido alguma demanda a toque de caixa.

Talvez tenha a ver com o fato de ter sido criado para integrar a mostra "E se fez a Praça Roosevelt em 7 dias", organizada pelo grupo Os Satyros no começo do ano, quando uma maratona de sete peças refletia a vida que (sobre)vive naquela praça.

Pois o texto de Mário Bortolotto sobreviveu aos sete dias e, terminada a mostra, conquistou temporada própria.
Essa origem pode explicar o estilo meio "quero ser Plínio Marcos" da peça. Talvez fosse inevitável que, ao tematizar a praça que fica ao lado de um viaduto e já abrigou prostitutas e mendigos, a história tratasse de pessoas marginais e deprimidas que usam drogas, enchem a cara e não lavam a louça há meses. E, em se tratando dessa marginália, fosse também inevitável o estilo aqui chamado de "quero ser Plínio Marcos", recheado de "porras", "caralhos" e outras agressões quase didáticas para representar a degradação.

Disso, a premissa que encontramos no palco é um homem extremamente deprimido com uma pilha de pratos a lavar do tamanho de sua depressão, seu amigo elétrico-drogado que não se importa em não incomodar, o síndico do prédio atrás de pó e a ex-namorada do deprimido que, sem muito tempo e esforço, descobrimos ser a causa do coração partido e estar com uma doença terminal, cujas outras informações além do fato de ser terminal não vêm ao caso ao enredo.

Interpretada por Paula Cohen sem muita auto-piedade, a garota é o que leva humanidade ao apartamento mal cuidado e também começa a fazer toda aquela encenação Plínio Marcos wanna be parecer, afinal, realidade.

Feito basicamente de texto, o espetáculo se desenvolve por meio das alfinetadas e piadas de humor negro que os personagens lançam um ao outro. Nós, já acostumados a essa estética submundana que nosso teatro e nosso cinema adoram, entendemos que a agressividade e a decadência são as fórmulas para tentar apenas sugerir a angústia humana. É mais ou menos nisso que se constrói a relação do público com "Uma pilha de pratos na cozinha" em seus primeiros 55 minutos: "Ok, ok, já entendi que vocês querem falar da angústia humana", sem muita coisa que qualquer baixio das bestas já não pudesse ter nos contado.

Nos cinco minutos conclusivos, de repente, a sutileza é quase um susto. Uma pincelada de sentimento, finalmente sem brutalidade, arredonda o texto, e só então faz toda aquela angústia que a peça explorava chegar à platéia. (Com a ressalva de adiantar o final sem revelá-lo).

Às vezes, por que não?, cinco minutos podem valer uma hora.

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